Até onde és honesto contigo e até onde sopras a tua verdade?

Dizer a verdade é uma coisa, ser honesto é outra!

Tenho-me deparado com diversas pessoas que são muito sinceras, dizem a verdade acima de tudo sobre todas as coisas nas suas vidas, mas depois sentem sempre uma certa insatisfação e frustração constantes. Dizem não entender o porquê de atraírem sempre situações injustas, e como que uma lentidão imensa no alcance dos seus objetivos.

O que se verifica na realidade é que dizer a verdade não é o mesmo que se fazer uso da honestidade. Ser-se completamente honesto exige de nós uma confiança total no que sentimos e uma fé inabalável na vida e em nós próprios. Sem isso não vivemos o tal propósito que tanto se fala por aí.

Segundo a minha experiência no acompanhamento de pessoas que se buscam a si mesmas, e acima de tudo pela minha vivência pessoal, constato que por maior que seja a busca, por maior que seja o conhecimento e a proeza de se conseguir expressar o que se sente, dizendo a verdade, sem estarmos alinhados na prática com essa verdade nas nossas atitudes e decisões, nada vai mudar.

Há dois movimentos importantes para que esta honestidade seja uma verdade em nós, os quais precisamos urgente e genuinamente compreender. Um, é a permissão de sentir tudo aquilo que na realidade sentimos, seja bom ou menos bom, e o outro, é a aceitação das sensações desse sentir, isenta de todo e qualquer tipo de autojulgamento e autoexigência.

Nesta vida questionamos e buscamos, esperando respostas para deixar de sentir o que sentimos, aquilo que nos deixa desconfortáveis. Ocupados nessa ânsia de resposta, não percebemos o quanto reprimimos o que o corpo tenta mostrar através do sentir, e o quanto estamos a cultivar mais e mais sofrimento.  Enquanto, em verdade, o que sentimos favorece-nos o trabalho de nos vermos a nós mesmos. A resposta para aquilo que buscamos está exatamente em conhecer aquilo que sentimos, estando desta forma a permitir a libertação do desconforto, o que por si só nos vai trazer a sensação de paz e a não pressa de buscar aquilo que já existe bem presente nas nossas células e que teimamos em tapar a vista e o ouvido.

A única forma de conseguirmos uma atenção profunda para nos abrirmos ao nosso sentir interno, ao nosso coração, é precisamente esta abertura ao que estamos a sentir. A porca torce o rabo muitas vezes porque não queremos admitir para nós próprios até onde essa abertura nos pode levar, por medo! Sabemos internamente que nos levará até aos confins dos limites dos nossos mais temerosos desafios e força-nos a levantar o tapete duma vez por todas e limpar tudo o que sem ninguém ver vamos deitando pra baixo dele, vez após vez.

Como referi no artigo de março, quando somos honestos estamos a ser responsáveis por tudo o que sentimos. Ser responsável é ter a habilidade de responder ao que nos sucede e em especial a tudo o que sentimos – significa deixar o fardo da culpa, da acusação do que devia e não devia, para um estado de compreensão da resposta que damos em função do que recebemos e consequente transmutação. Exige de nós apenas uma coisa: a ética de sermos humanamente nós mesmos.

Há uma passagem dum filme que diz: “Nossas vidas não são propriamente nossas. Do útero ao túmulo estamos ligados por outras pessoas. No passado e no presente. E por cada crime e ato de bondade renasce nosso futuro.”

Todos nós vivemos a maioria das vezes segundo as nossas emoções que geram atitudes (ou não) que nos fazem acreditar que estamos a fazer o “certo”. Precisamos por isso, com paciência, procurar conhecer as nossas necessidades internas para que consigamos concentrar a energia onde ela é mais necessária para o nosso crescimento seja interno seja externo, e acima de tudo para a nossa honestidade ser uma verdade constante, o mais possível, no nosso dia-a-dia.

Sejamos a bondade viva nas nossas células para que não assistamos impávidos ao nosso próprio auto-suicídio.

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